quinta-feira, 17 de junho de 2010

Fotografias


Há seis anos minha irmã morreu.

Nunca gostei de tirar fotos, talvez por não me achar fotogênico ou algo assim. Mas desde sua morte passei a ver as fotografias com outros olhos.

Na Idade Média havia quem achasse que uma fotografia detinha o poder de aprisionar a alma de alguém no papel impresso. Hoje há quem ache isso tolice. Mas não o é. Não por completo.

Acredito que uma fotografia grava mais que apenas imagens, grava sensações. Ela captura detalhes ao ar que nós mesmos não constatamos, embora estejamos ali, sorrindo, fazendo pose, esperando o flash para podermos voltar ao que fazíamos até então. A fotografia rouba de nós uma parcela daquele momento, com parte de seus gostos, de suas expectativas. E então, quando consultadas noutro momento, devolvem-na temperada com saudade e uns traços de decepção. Decepção por termos vivido um momento tão completo como aquele, e já termos perdido tantos detalhes.

Nossa memória, por vezes, mata alguns de nossos antepassados - amigos ou parente -, sem que sequer percebamos. Mas, por vezes também, deparamo-nos com uma fotografia, esquecida, perdida ou até mesmo abandonada entre as folhas de um livro velho qualquer, e eis então que esta fotografia nos revive algumas pessoas das quais sequer nos lembrávamos mais. E é então que somos golpeados pela lâmina da culpa. Culpa por termos nos esquecidos de momentos tão bons, de pessoas tão fantásticas, das quais juraríamos jamais esquecer.

Isso aconteceu comigo. Gostaria de dizer que é apenas mais um pedaço de papel. Que aquilo não é mais do que deveria ser, mas estaria mentindo. Aquilo é parte da minha vida, parte do meu passado, parte das minhas expectativas, medos e crenças.

Mais do que isso tudo. Essa fotografia veio me lembrar a real razão por eu ter me livrado de todas as demais....

A saudade é um veneno, e o esquecimento não é mais que um antigo cúmplice.

2 comentários:

  1. Concordo plenamente, ela é capaz de aguçar todos os nossos sentidos.

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  2. Fotografias dão uma sensação estranha de angústia e felicidade ao mesmo tempo pra mim. Por mais que às vezes seja cruel olhar pra elas e relembrar o passado, parece que elas carregam um pedaço de mim que - como você disse - nem eu mesma me lembro às vezes!

    Não sei como isso vai ser daqui alguns anos .. afinal cada vez mais as fotos tem servido mais pra "mostrar algo que não se é" do que pra realmente capturar um momento, com suas sensações e tudo mais.

    Mas acho que falei demais, hahaha.

    Muito bom o texto, Fe.
    Continua escrevendo dessa vez, heim?

    Beijos.

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